Lumife @ 23:54

Sab, 15/01/05

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.



Regresso à minha terra; andei perdido...


Chamem-me réprobo, ignaro, o que quiserem...


Sou como o pássaro que, depois de ferido,


Que Deus lhe dê a campa que lhe derem...


.


Não olho altares, não rezo, não ajoelho,


Mas em minha alma a comoção dorida


De quem volta de longe, de bem longe...,


E encontra à sua espera toda a sua vida...


.


Ouço as primeiras falas que empreguei,


Vejo as primeiras luzes que enxerguei,


Amo as primeiras coisas que dei


O amor que Deus pôs em quanto amei...


.


E trago tudo junto, aqui, no peito


Neste albergue de vozes, gentes, passos,


Lúgubre às vezes, soalhento às vezes,


E tanto, tanto meu, que lhe criei o gosto


.


Verdadeiro de quem ama e já não chora


Porque o chorar passou... a despedida


Melhor que um poeta pode dar à Vida


É despedir-se dela num sorriso:


.


Talvez num beijo... Talvez numa criança


Que o mundo, ao largo mundo vem mandada


Por seus pais que a criaram, sua terra que a viu


Quando ela foi por Deus nada e criada...


.


Agora temos tempo de fartura


(Quer faça sol ou vento, ou entristeça


A minha mente, e a minha voz se esqueça...)


De ir cantando de novo, à aventura...


.


À aventura dos limos e das seivas,


Das secas e dos montes, dos moinhos,


Dos pais que não se fartam de sentir


A dor sublime de ver crescer os filhos...


.


Terra de alqueives, ou monda, ou de pousio,


Terra de largos trigueirais ao sol,


— Quem vos mandou contaminar-me,


E para sempre, do vosso resplendor?...


.


Poalha luminosa, mas agreste;


Folha de zinco em brasa; imensidão;


A toda a volta — Tanto em vós como em mim —


Implantou Deus a solidão.


.


Solidão! de hastes curvas no silêncio


Que dá a volta inteira à terra inteira,


Solidão que eu invoco como se


Vos conhecesse pela primeira vez!...


.


Subo os degraus a medo; páro e ouço...


O que ouço eu? a voz dos sinos? minha mãe?


É com palavras simples e em segredo


Que eu beijo a terra onde nasci também,


.


Bernardim, Florbela, meu louco e bom Fialho,


Meus irmãos de pobreza, e solidão, e amor preso,


Aqui vos trago o que hoje tenho: Um coração


Sofredor como o vosso, e como o vosso ileso!


.


Ó planície de alma! ó vento sem ser vento!


Ó ásperas vertentes ao nascente;


Ó fontes que estais secas, ó passeios


Da minha mágoa adolescente...


.


Como eu vos quero ainda! como eu sinto


Que tudo o mais é tédio e é traição...


Pode-se amar tudo na Vida, mas


Nunca se pode trair o coração.


.


Dele nos vem, mais tarde a confiança.


Do coração nos sobe, um certo dia,


Uma satisfação que já não pode


Sequer chamar-se-lhe alegria.


.


E todavia tanta... A de sabermos


Que ainda em nós se ergue e não distrai


A casa da esquina onde nascemos...


A torre que dá horas e não cai...


.


Peço perdão a Deus de ter voltado


Mais pobre e mais feliz: mais perdoado!



.



Voltei à minha terra; aqui faz sol!





Anónimo @ 00:34

Ter, 18/01/05

 

Fascinante...
:)O turista
(http://www.turistar.blogspot.com)
(mailto:oturista@aeiou.pt)

Anónimo @ 10:16

Seg, 17/01/05

 

Cito aqui umas palavras que se adequam ao que li. As palavras foram tiradas de uma entrevista a Eduardo Lourenço sobre Jorge de Sena: "Não me arrependo de ter tido essas palavras.
Tive-as, não as tenho mais, elas me têm a mim."Carlos tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)

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