Lumife @ 01:46

Sex, 30/07/04

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.



Só a leve esperança em toda a vida


Disfarça a pena de viver, mais nada


Não é mais a existência resumida


Que uma breve esperança malograda


.


O eterno sonho d'alma desterrada


Que a traz ansiosa e embevecida


E uma hora feliz sempre adiada


E que não chega nunca em toda vida


.


Essa felicidade que supomos


Árvore milagrosa que sonhamos


Toda arreada de dourados pomos


.


Existe sim, mas nunca a encontramos


Porque ela está sempre apenas onde a pomos


E nunca a pomos onde nós estamos.



.


(Fernando Pessoa)





Lumife @ 02:04

Qua, 28/07/04

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.


Se é sem dúvida Amor esta explosão


de tantas sensações contraditórias;


a sórdida mistura das memórias


tão longe da verdade e da invenção;



.


o espelho deformante; a profusão


de frases insensatas, incensórias;


a cúmplice partilha das histórias


do que os outros dirão ou não dirão;


.


se é sem dúvida Amor a covardia


de buscar nos lençóis a mais sombria


razão de encantamento e de desprezo;


.


não há dúvida, Amor, que te não fujo


e que por ti, tão cego, surdo e sujo


tenho vivido eternamente preso!



.


David Mourão-Ferreira





Lumife @ 04:01

Ter, 27/07/04

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.





Medas de trigo ao sol - Agosto,



Tudo o calor do Sonho amadurece;



Só a verdade amargura do meu rosto



Permanece!



.



Até me lembro que não sou da vida!



Que não pertence à terra esta tristeza...



Que sou qualquer desgraça acontecida



Fora do seio-mãe da natureza.



.



E contudo não sei de criatura



Que mais deseje ter esta alegria



De um fruto azedo que arrancou doçura



Do céu, das pedras e da luz do dia.



.


(Miguel Torga)


Foto de Liliana Pedrosa




Lumife @ 17:37

Seg, 26/07/04

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.


Neste tormento inútil, neste empenho


De tornar em silêncio o que em mim canta,


Sobem-me roucos bardos à garganta


Num clamor de loucura que contenho.



.


Ó alma da charneca sacrossanta,


Irmã da alma rútila que eu tenho,


dize para onde eu vou, donde é que venho


Nesta dor que me exalta e me alevanta!



.


Visões de mundos novos, de infinitos,


Cadências de soluços e de gritos,


Fogueira a esbrasear que me consome!



.


Dize que mão é esta que me arrasta?


Nódoa de sangue que palpita e alastra...


Dize de que é que eu tenho sede e fome?!




.


(Camilo Pessanha)





Lumife @ 22:44

Sab, 24/07/04

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.



Eles não sabem que o sonho


é uma constante da vida


tão concreta e definida


como outra coisa qualquer,


como esta pedra cinzenta


em que me sento e descanso,


como este ribeiro manso


em serenos sobressaltos,


como estes pinheiros altos


que em verde e oiro se agitam,


como estas aves que gritam


em bebedeiras de azul.


.


Eles não sabem que o sonho


é vinho, é espuma, é fermento,


bichinho álacre e sedento,


de focinho pontiagudo,


que fossa através de tudo


num perpétuo movimento


.


Eles não sabem que o sonho


é tela, é cor, é pincel.


base, fuste, capitel,


arco em ogiva, vitral,


pináculo de catedral,


contraponto, sinfonia,


máscara grega, magia,


que é retorta de alquimista,


mapa do mundo distante,


rosa-dos-ventos, Infante,


caravela quinhentista,


que é Cabo da Boa Esperança,


ouro, canela, marfim,


florete de espadachim,


bastidor, passo de dança,


Columbina e Arlequim,


passarola voadora,


pára-raios, locomotiva,


barco de proa festiva,


alto-forno, geradora,


ultra-som, televisão,


desembarque em foguetão


na superfície lunar.


.


Eles não sabem, nem sonham


que o sonho comanda a vida.


Que sempre que o homem sonha


o mundo pula e avança


como bola colorida


entre as mão de uma criança.



.


(António Gedeão)




Lumife @ 13:39

Dom, 11/07/04

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O primeiro tema da reflexão grega é a justiça



E eu penso nesse instante em que ficaste exposta



Estavas grávida porém não recuaste



Porque a tua lição é esta: fazer frente



.



Pois não deste homem por ti



E não ficaste em casa a cozinhar intrigas



Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres



Nem usaste de manobra ou de calúnia



E não serviste apenas para chorar os mortos



.



Tinha chegado o tempo



Em que era preciso que alguém não recuasse



E a terra bebeu um sangue duas vezes puro



Porque eras a mulher e não somente a fêmea



Eras a inocência frontal que não recua



Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste



E a busca da justiça continua



.


(Sophia Andersen)



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