Lumife @ 18:41

Ter, 26/04/05

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*


Dizem-me que esta cadeia de literatura começou na República Checa, passou pela
Bélgica, depois pela Eslovénia e finalmente chegou a Portugal.


O testemunho foi-me passado pelo Lopes Guerreiro do Alvitrando:


Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?


EQUADOR - Miguel Sousa Tavares


Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?


Entusiasmado mas não apanhado.


Qual foi o último livro que compraste?


O CÓDIGO DA VINCI - Dan Brown


Qual o último livro que leste?


A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER - Milan Kundera


Que livros estás a ler?


O AMOR NOS TEMPOS DE CÓLERA - Gabriel Garcia Marques


Que livro levarias para uma ilha deserta?


AMESTERDÃO - Ian Mcewan


O ALQUIMISTA - Paulo Coelho


A COSTA DOS MURMÚRIOS - Lídia Jorge


A quem vais passar este testemunho e porquê


ALENTEJANICES


e


GRILINHA


porque um é dum compadre Alentejano e o outro é duma amiga que muito considero.








Lumife @ 11:52

Sab, 23/04/05

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*



Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais feliz

dos povos à beira-terra


*


Onde entre vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza


*


Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raíz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado


*


Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos dos passado

se chamava esse país

Portugal suicidado


*


Ali nas vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

vivia um povo tão pobre

que partia para a guerra

para encher quem estava podre

de comer a sua terra


*


Um povo que era levado

para Angola nos porões

um povo que era tratado

como a arma dos patrões

um povo que era obrigado

a matar por suas mãos

sem saber que um bom soldado

nunca fere os seus irmãos


*


Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo


*


Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade


*


Era já uma promessa

era a força da razão

do coração à cabeça

da cabeça ao coração

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas tabém tinha a seu lado

muitos homens na prisão


*


Esses que tinham lutado

a defender um irmão

esses que tinham passado

o horror da solidão

esses que tinham jurado

sobre uma côdea de pão

ver o povo libertado

do terror da opressão


*


Não tinham armas é certo

mas tinham toda a razão

quando um homem morre perto

tem de haver distanciação


*


uma pistola guardada

nas dobras da sua opção

uma bala disparada

contra a sua própria mão

e uma força perseguida

que na escolha do mais forte

faz com a que a força da vida

seja maior do que a morte


*


Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão


*


Posta a semente do cravo

começou a floração

do capitão ao soldado

do soldado ao capitão


*


Foi então que o povo armado

percebeu qual a razão

porque o povo despojado

lhe punha as armas na mão


*


Pois também ele humilhado

em sua própria grandeza

era soldado forçado

contra a pátria portuguesa


*


Era preso e exilado

e no seu próprio país

muitas vezes estrangulado

pelos generais senis


*


Capitão que não comanda

não pode ficar calado

é o povo que lhe manda

ser capitão revoltado

é o povo que lhe diz

que não ceda e não hesite

- pode nascer um país

do ventre duma chaimite


*


Porque a força bem empregue

contra a posição contrária

nunca oprime nem persegue

- é a força revolucionária!


*


Foi então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade


*


Disse a primeira palavra

na madrugada serena

um poeta que cantava

o povo é quem mais ordena


*


E então por vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

desceram homens sem medo

marujos soldados "páras"

que não queriam o degredo

de um povo que se separa.

E chegaram à cidade

onde os monstros se acoitavam

era a hora da verdade

para as hienas que mandavam

a hora da claridade

para os sóis que despontavam

e a hora da vontade

para os homens que lutavam


*


Em idas vindas esperas

encontros esquinas e praças

não se pouparam as feras

arrancaram-se as mordaças

e o povo saiu à rua

com sete pedras na mão

e uma pedra de lua

no lugar do coração


*


Dizia soldado amigo

meu camarada e irmão

este povo está contigo

nascemos do mesmo chão

trazemos a mesma chama

temos a mesma razão

dormimos na mesma cama

comendo do mesmo pão

Camarada e meu amigo

soldadinho ou capitão

este povo está contigo

a malta dá-te razão


*


Foi esta força sem tiros

de antes quebrar que torcer

esta ausência de suspiros

esta fúria de viver

este mar de vozes livres

sempre a crescer a crescer

que das espingardas fez livros

para aprendermos a ler

que dos canhões fez enxadas

para lavrarmos a terra

e das balas disparadas

apenas o fim da guerra


*


Foi esta força viril

de antes quebrar que torcer

que em vinte e cinco de Abril

fez Portugal renascer


*


E em Lisboa capital

dos novos mestres de Aviz

o povo de Portugal

deu o poder a quem quis


*


Mesmo que tenha passado

às vezes por mãos estranhas

o poder que ali foi dado

saiu das nossas entranhas.

Saiu das vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

onde um povo se curvava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua prórpia pobreza


*


E se esse poder um dia

o quiser roubar alguém

não fica na burguesia

volta à barriga da mãe.

Volta à barriga da terra

que em boa hora o pariu

agora ninguém mais cerra

as portas que Abril abriu.


*


Essas portas que em Caxias

se escancararam de vez

essas janelas vazias

que se encheram outra vez

e essas celas tão frias

tão cheias de sordidez

que espreitavam como espias

todo o povo português.


*


Agora que já floriu

a esperança na nossa terra

as portas que Abril abriu

nunca mais ninguém as cerra.


*


Contra tudo o que era velho

levantado como um punho

em Maio surgiu vermelho

o cravo de mês de Junho.


*


Quando o povo desfilou

nas ruas em procissão

de novo se processou

a própria revolução.


*


Mas era olhos as balas

abraços punhais e lanças

enamoradas as alas

dos soldados e crianças.


*


E o grito que foi ouvido

tantas vezes repetido

dizia que o povo unido

jamais seria vencido.


*


Contra tudo o que era velho

levantado como um punho

em Maio surgiu vermelho

o cravo do mês de Junho.


*


E então operários mineiros

pescadores e ganhões

marçanos e carpinteiros

empregados dos balcões

mulheres a dias pedreiros

reformados sem pensões

dactilógrafos carteiros

e outras muitas profissões

souberam que o seu dinheiro

era presa dos patrões.


*


A seu lado também estavam

jornalistas que escreviam

actores que desbobravam

cientistas que aprendiam

poetas que estrebuchavam

cantores que não se vendiam

mas enquanto estes lutavam

é certo que não sentiam

a fome com que apertavam

os cintos dos que os ouviam.


*


Porém cantar é ternura

escrever constrói liberdade

e não há coisa mais pura

do que dizer a verdade.


*


E uns e outros irmanados

na mesma luta de ideias

ambos sectores explorados

ficaram partes iguais.


*


Entanto não descansavam

entre pragas e perjúrios

agulhas que se espetavam

silêncios boatos murmúrios

risinhos que se calavam

palácios contra tugúrios

fortunas que levantavam

promessas de maus augúrios

os que em vida se enterravam

por serem falsos e espúrios

maiorais da minoria

que diziam silenciosa

e que em silêncio faziam

a coisa mais horrorosa:

minar como um sinapismo

e com ordenados régios

o alvor do socialismo

e o fim dos privilégios.


*


Foi então se bem vos lembro

que sucedeu a vindima

quando pisámos Setembro

a verdade veio acima.


*


E foi um mosto tão forte

que sabia tanto a Abril

que nem o medo da morte

nos fez voltar ao redil.


*


Ali ficámos de pé

juntos soldados e povo

para mostrarmos como é

que se faz um país novo.


*


Ali dissemos não passa!

E a reacção não passou.

Quem já viveu a desgraça

odeia a quem desgraçou.


*


Foi a força do Outono

mais forte que a Primavera

que trouxe os homens sem dono

de que o povo estava à espera.


*


Foi a força dos mineiros

pescadores e ganhões

operários e carpinteiros

empregados dos balcões

mulheres a dias pedreiros

reformados sem pensões

dactilógrafos carteiros

e outras muitas profissões

que deu o poder cimeiro

a quem não queria patrões.


*


Desde esse dia em que todos

nós repartimos o pão

é que acabaram os bodos

- cumpriu-se a revolução.


*


Porém em quintas vivendas

palácios e palacetes

os generais com prebendas

caciques e cacetetes

os que montavam cavalos

para caçarem veados

os que davam dois estalos

na cara dos empregados

os que tinham bons amigos

no consórcio dos sabrões

e coçavam os umbigos

como quem coça os galões

os generais subalternos

que aceitavam os patrões

os generais inimigos

os generais garanhões

teciam teias de aranha

e eram mais camaleões

que a lombriga que se amanha

com os próprios cagalhões.

Com generais desta apanha

já não há revoluções.


*


Por isso o onze de Março

foi um baile de Tartufos

uma alternância de terços

entre ricaços e bufos.


*


E tivemos de pagar

com o sangue de um soldado

o preço de já não estar

Portugal suicidado.


*


Fugiram como cobardes

e para terras de Espanha

os que faziam alardes

dos combates em campanha.


*


E aqui ficaram de pé

capitães de pedra e cal

os homens que na Guiné

aprenderam Portugal.


*


Os tais homens que sentiram

que um animal racional

opões àqueles que o firam

consciência nacional.


*

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*<p>

Era uma vez um país<br>
onde entre o mar e a guerra<br>
vivia o mais feliz<br>
dos povos à beira-terra<p>
*<p>
Onde entre vinhas sobredos<br>
vales socalcos searas<br>
serras atalhos veredas<br>
lezírias e praias claras<br>
um povo se debruçava<br>
como um vime de tristeza<br>
sobre um rio onde mirava<br>
a sua própria pobreza<p>
*<p>
Era uma vez um país<br>
onde o pão era contado<br>
onde quem tinha a raíz<br>
tinha o fruto arrecadado<br>
onde quem tinha o dinheiro<br>
tinha o operário algemado<br>
onde suava o ceifeiro<br>
que dormia com o gado<br>
onde tossia o mineiro<br>
em Aljustrel ajustado<br>
onde morria primeiro<br>
quem nascia desgraçado<p>
*<p>
Era uma vez um país<br>
de tal maneira explorado<br>
pelos consórcios fabris<br>
pelo mando acumulado<br>
pelas ideias nazis<br>
pelo dinheiro estragado<br>
pelo dobrar da cerviz<br>
pelo trabalho amarrado<br>
que até hoje já se diz<br>
que nos tempos dos passado<br>
se chamava esse país<br>
Portugal suicidado<p>
*<p>
Ali nas vinhas sobredos<br>
vales socalcos searas<br>
serras atalhos veredas<br>
lezírias e praias claras<br>
vivia um povo tão pobre<br>
que partia para a guerra<br>
para encher quem estava podre<br>
de comer a sua terra<p>
*<p>
Um povo que era levado<br>
para Angola nos porões<br>
um povo que era tratado<br>
como a arma dos patrões<br>
um povo que era obrigado<br>
a matar por suas mãos<br>
sem saber que um bom soldado<br>
nunca fere os seus irmãos<p>
*<p>
Ora passou-se porém<br>
que dentro de um povo escravo<br>
alguém que lhe queria bem<br>
um dia plantou um cravo<p>
*<p>
Era a semente da esperança<br>
feita de força e vontade<br>
era ainda uma criança<br>
mas já era a liberdade<p>
*<p>
Era já uma promessa<br>
era a força da razão<br>
do coração à cabeça<br>
da cabeça ao coração<br>
Quem o fez era soldado<br>
homem novo capitão<br>
mas tabém tinha a seu lado<br>
muitos homens na prisão<p>
*<p>
Esses que tinham lutado<br>
a defender um irmão<br>
esses que tinham passado<br>
o horror da solidão<br>
esses que tinham jurado<br>
sobre uma côdea de pão<br>
ver o povo libertado<br>
do terror da opressão<p>
*<p>
Não tinham armas é certo<br>
mas tinham toda a razão<br>
quando um homem morre perto<br>
tem de haver distanciação<p>
*<p>
uma pistola guardada<br>
nas dobras da sua opção<br>
uma bala disparada<br>
contra a sua própria mão<br>
e uma força perseguida<br>
que na escolha do mais forte<br>
faz com a que a força da vida<br>
seja maior do que a morte<p>
*<p>
Quem o fez era soldado<br>
homem novo capitão<br>
mas também tinha a seu lado<br>
muitos homens na prisão<p>
*<p>
Posta a semente do cravo<br>
começou a floração<br>
do capitão ao soldado<br>
do soldado ao capitão<p>
*<p>
Foi então que o povo armado<br>
percebeu qual a razão<br>
porque o povo despojado<br>
lhe punha as armas na mão<p>
*<p>
Pois também ele humilhado<br>
em sua própria grandeza<br>
era soldado forçado<br>
contra a pátria portuguesa<p>
*<p>
Era preso e exilado<br>
e no seu próprio país<br>
muitas vezes estrangulado<br>
pelos generais senis<p>
*<p>
Capitão que não comanda<br>
não pode ficar calado<br>
é o povo que lhe manda<br>
ser capitão revoltado<br>
é o povo que lhe diz<br>
que não ceda e não hesite<br>
- pode nascer um país<br>
do ventre duma chaimite<p>
*<p>
Porque a força bem empregue<br>
contra a posição contrária<br>
nunca oprime nem persegue<br>
- é a força revolucionária!<p>
*<p>
Foi então que Abril abriu<br>
as portas da claridade<br>
e a nossa gente invadiu<br>
a sua própria cidade<p>
*<p>
Disse a primeira palavra<br>
na madrugada serena<br>
um poeta que cantava<br>
o povo é quem mais ordena<p>
*<p>
E então por vinhas sobredos<br>
vales socalcos searas<br>
serras atalhos veredas<br>
lezírias e praias claras<br>
desceram homens sem medo<br>
marujos soldados "páras"<br>
que não queriam o degredo<br>
de um povo que se separa.<br>
E chegaram à cidade<br>
onde os monstros se acoitavam<br>
era a hora da verdade<br>
para as hienas que mandavam<br>
a hora da claridade<br>
para os sóis que despontavam<br>
e a hora da vontade<br>
para os homens que lutavam<p>
*<p>
Em idas vindas esperas<br>
encontros esquinas e praças<br>
não se pouparam as feras<br>
arrancaram-se as mordaças<br>
e o povo saiu à rua<br>
com sete pedras na mão<br>
e uma pedra de lua<br>
no lugar do coração<p>
*<p>
Dizia soldado amigo<br>
meu camarada e irmão<br>
este povo está contigo<br>
nascemos do mesmo chão<br>
trazemos a mesma chama<br>
temos a mesma razão<br>
dormimos na mesma cama<br>
comendo do mesmo pão<br>
Camarada e meu amigo<br>
soldadinho ou capitão<br>
este povo está contigo<br>
a malta dá-te razão<p>
*<p>
Foi esta força sem tiros<br>
de antes quebrar que torcer<br>
esta ausência de suspiros<br>
esta fúria de viver<br>
este mar de vozes livres<br>
sempre a crescer a crescer<br>
que das espingardas fez livros<br>
para aprendermos a ler<br>
que dos canhões fez enxadas<br>
para lavrarmos a terra<br>
e das balas disparadas<br>
apenas o fim da guerra<p>
*<p>
Foi esta força viril<br>
de antes quebrar que torcer<br>
que em vinte e cinco de Abril<br>
fez Portugal renascer<p>
*<p>
E em Lisboa capital<br>
dos novos mestres de Aviz<br>
o povo de Portugal<br>
deu o poder a quem quis<p>
*<p>
Mesmo que tenha passado<br>
às vezes por mãos estranhas<br>
o poder que ali foi dado<br>
saiu das nossas entranhas.<br>
Saiu das vinhas sobredos<br>
vales socalcos searas<br>
serras atalhos veredas<br>
lezírias e praias claras<br>
onde um povo se curvava<br>
como um vime de tristeza<br>
sobre um rio onde mirava<br>
a sua prórpia pobreza<p>
*<p>
E se esse poder um dia<br>
o quiser roubar alguém<br>
não fica na burguesia<br>
volta à barriga da mãe.<br>
Volta à barriga da terra<br>
que em boa hora o pariu<br>
agora ninguém mais cerra<br>
as portas que Abril abriu.<p>
*<p>
Essas portas que em Caxias<br>
se escancararam de vez<br>
essas janelas vazias<br>
que se encheram outra vez<br>
e essas celas tão frias<br>
tão cheias de sordidez<br>
que espreitavam como espias<br>
todo o povo português.<p>
*<p>
Agora que já floriu<br>
a esperança na nossa terra<br>
as portas que Abril abriu<br>
nunca mais ninguém as cerra.<p>
*<p>
Contra tudo o que era velho<br>
levantado como um punho<br>
em Maio surgiu vermelho<br>
o cravo de mês de Junho.<p>
*<p>
Quando o povo desfilou<br>
nas ruas em procissão<br>
de novo se processou<br>
a própria revolução.<p>
*<p>
Mas era olhos as balas<br>
abraços punhais e lanças<br>
enamoradas as alas<br>
dos soldados e crianças.<p>
*<p>
E o grito que foi ouvido<br>
tantas vezes repetido<br>
dizia que o povo unido<br>
jamais seria vencido.<p>
*<p>
Contra tudo o que era velho<br>
levantado como um punho<br>
em Maio surgiu vermelho<br>
o cravo do mês de Junho.<p>
*<p>
E então operários mineiros<br>
pescadores e ganhões<br>
marçanos e carpinteiros<br>
empregados dos balcões<br>
mulheres a dias pedreiros<br>
reformados sem pensões<br>
dactilógrafos carteiros<br>
e outras muitas profissões<br>
souberam que o seu dinheiro<br>
era presa dos patrões.<p>
*<p>
A seu lado também estavam<br>
jornalistas que escreviam<br>
actores que desbobravam<br>
cientistas que aprendiam<br>
poetas que estrebuchavam<br>
cantores que não se vendiam<br>
mas enquanto estes lutavam<br>
é certo que não sentiam<br>
a fome com que apertavam<br>
os cintos dos que os ouviam.<p>
*<p>
Porém cantar é ternura<br>
escrever constrói liberdade<br>
e não há coisa mais pura<br>
do que dizer a verdade.<p>
*<p>
E uns e outros irmanados<br>
na mesma luta de ideias<br>
ambos sectores explorados<br>
ficaram partes iguais.<p>
*<p>
Entanto não descansavam<br>
entre pragas e perjúrios<br>
agulhas que se espetavam<br>
silêncios boatos murmúrios<br>
risinhos que se calavam<br>
palácios contra tugúrios<br>
fortunas que levantavam<br>
promessas de maus augúrios<br>
os que em vida se enterravam<br>
por serem falsos e espúrios<br>
maiorais da minoria<br>
que diziam silenciosa<br>
e que em silêncio faziam<br>
a coisa mais horrorosa:<br>
minar como um sinapismo<br>
e com ordenados régios<br>
o alvor do socialismo<br>
e o fim dos privilégios.<p>
*<p>
Foi então se bem vos lembro<br>
que sucedeu a vindima<br>
quando pisámos Setembro<br>
a verdade veio acima.<p>
*<p>
E foi um mosto tão forte<br>
que sabia tanto a Abril<br>
que nem o medo da morte<br>
nos fez voltar ao redil.<p>
*<p>
Ali ficámos de pé<br>
juntos soldados e povo<br>
para mostrarmos como é<br>
que se faz um país novo.<p>
*<p>
Ali dissemos não passa!<br>
E a reacção não passou.<br>
Quem já viveu a desgraça<br>
odeia a quem desgraçou.<p>
*<p>
Foi a força do Outono<br>
mais forte que a Primavera<br>
que trouxe os homens sem dono<br>
de que o povo estava à espera.<p>
*<p>
Foi a força dos mineiros<br>
pescadores e ganhões<br>
operários e carpinteiros<br>
empregados dos balcões<br>
mulheres a dias pedreiros<br>
reformados sem pensões<br>
dactilógrafos carteiros<br>
e outras muitas profissões<br>
que deu o poder cimeiro<br>
a quem não queria patrões.<p>
*<p>
Desde esse dia em que todos<br>
nós repartimos o pão<br>
é que acabaram os bodos<br>
- cumpriu-se a revolução.<p>
*<p>
Porém em quintas vivendas<br>
palácios e palacetes<br>
os generais com prebendas<br>
caciques e cacetetes<br>
os que montavam cavalos<br>
para caçarem veados<br>
os que davam dois estalos<br>
na cara dos empregados<br>
os que tinham bons amigos<br>
no consórcio dos sabrões<br>
e coçavam os umbigos<br>
como quem coça os galões<br>
os generais subalternos<br>
que aceitavam os patrões<br>
os generais inimigos<br>
os generais garanhões<br>
teciam teias de aranha<br>
e eram mais camaleões<br>
que a lombriga que se amanha<br>
com os próprios cagalhões.<br>
Com generais desta apanha<br>
já não há revoluções.<p>
*<p>
Por isso o onze de Março<br>
foi um baile de Tartufos<br>
uma alternância de terços<br>
entre ricaços e bufos.<p>
*<p>
E tivemos de pagar<br>
com o sangue de um soldado<br>
o preço de já não estar<br>
Portugal suicidado.<p>
*<p>
Fugiram como cobardes<br>
e para terras de Espanha<br>
os que faziam alardes<br>
dos combates em campanha.<p>
*<p>
E aqui ficaram de pé<br>
capitães de pedra e cal<br>
os homens que na Guiné<br>
aprenderam Portugal.<p>
*<p>
Os tais homens que sentiram<br>
que um animal racional<br>
opões àqueles que o firam<br>
consciência nacional.<p>
*<p<
Os tais homens que souberam<br>
fazer a revolução<br>
porque na guerra entenderam<br>
o que era a libertação.<p>
*<p>
Os que viram claramente<br>
e com os cinco sentidos<br>
morrer tanta tanta gente<br>
que todos ficaram vivos.<p>
*<p>
Os tais homens feitos de aço<br>
temperado com a tristeza<br>
que envolveram num abraço<br>
toda a história portuguesa.<p>
*<p>
Essa história tão bonita<br>
e depois tão maltratada<br>
por quem herdou a desdita<br>
da história colonizada.<p>
*<p>
Dai ao povo o que é do povo<br>
pois o mar não tem patrões.<br>
- Não havia estado novo<br>
nos poemas de Camões!<p>
*<p>
Havia sim a lonjura<br>
e uma vela desfraldada<br>
para levar a ternura<br>
à distância imaginada.<p>
*<p>
Foi este lado da história<br>
que os capitães descobriram<br>
que ficará na memória<br>
das naus que de Abril partiram<br>
das naves que transportaram<br>
o nosso abraço profundo<br>
aos povos que agora deram<br>
novos países ao mundo.<p>
*<p>
Por saberem como é<br>
ficaram de pedra e cal<br>
capitães que na Guiné<br>
descobriram Portugal.<p>
*<p>
Em sua pátria fizeram<br>
o que deviam fazer:<br>
ao seu povo devolveram<br>
o que o povo tinha a haver:<br>
Bancos seguros petróleos<br>
que ficarão a render<br>
ao invés dos monopólios<br>
para o trabalho crescer.<br>
Guindastes portos navios<br>
e outras coisas para erguer<br>
antenas centrais e fios<br>
de um país que vai nascer.<p>
*<p>
Mesmo que seja com frio<br>
é preciso é aquecer<br>
pensar que somos um rio<br>
que vai dar onde quiser<p>
*<p>
pensar que somos um mar<br>
que nunca mais tem fronteiras<br>
e havemos de navegar<br>
de muitíssimas maneiras.<p>
*<p>
No Minho com pés de linho<br>
no Alentejo com pão<br>
no Ribatejo com vinho<br>
na Beira com requeijão<br>
e trocando agora as voltas<br>
ao vira da produção<br>
no Alentejo bolotas<br>
no Algarve maçapão<br>
vindimas no Alto Douro<br>
tomates em Azeitão<br>
azeite da cor do ouro<br>
que é verde ao pé do Fundão<br>
e fica amarelo puro<br>
nos campos do Baleizão.<br>
Quando a terra for do povo<br>
o povo deita-lhe a mão!<p>
*<p>
É isto a reforma agrária<br>
em sua própria expressão:<br>
a maneira mais primária<br>
de que nós temos um quinhão<br>
da semente proletária<br>
da nossa revolução.<p>
*<p>
Quem a fez era soldado<br>
homem novo capitão<br>
mas também tinha a seu lado<br>
muitos homens na prisão.<p>
*<p>
De tudo o que Abril abriu<br>
ainda pouco se disse<br>
um menino que sorriu<br>
uma porta que se abrisse<br>
um fruto que se expandiu<br>
um pão que se repartisse<br>
um capitão que seguiu<br>
o que história lhe predisse<br>
e entre vinhas sobredos<br>
vales socalcos searas<br>
serras atalhos veredas<br>
lezírias e praias claras<br>
um povo que levantava<br>
sobre um rio de pobreza<br>
a bandeira em que ondulava<br>
a sua prórpia grandeza!<br>
De tudo o que Abril abriu<br>
ainda pouco se disse<br>
e só nos faltava agora<br>
que este Abril não se cumprisse.<br>
Só nos faltava que os cães<br>
viessem ferrar o dente<br>
na carne dos capitães<br>
que se arriscaram na frente.<p>
*<p>
Na frente de todos nós<br>
povo soberano e total<br>
e ao mesmo tempo é a voz<br>
e o braço de Portugal.<p>
*<p>
Ouvi banqueiros fascistas<br>
agiotas do lazer<br>
latifundiários machistas<br>
balofos verbos de encher<br>
e outras coisa em istas<br>
que não cabe dizer aqui<br>
que aos capitães progressistas<br>
o povo deu o poder!<br>
E se esse poder um dia<br>
o quiser roubar alguém<br>
não fica na burguesia<br>
volta à barriga da mãe!<br>
Volta à barriga da terra<br>
que em boa hora o pariu<p>
agora ninguém mais cerra<p>
as portas que Abril abriu!<p>

*<p>
Lisboa, Julho-Agosto de 1975<p>
José Carlos Ari dos Santos - "Obra poética"



Lumife @ 12:31

Qui, 21/04/05

aaa.jpgFoto tirada pela Ex.ma Senhora Dª Isabel do Carmo estimada e saudosa Professora do Externato S. João de Deus em Alvito. Recordação do dia 03 de Fevereiro de 1954 quando nevou, caso raro, em Alvito.




*


Meu lindo colégio antigo,

Onde aprendi a crescer,

Quem me dera lá voltar,

Ser novo e reviver.



*



Os teus professores amigos,

Não ensinaram em vão,

Deram-nos sabedoria,

E nós temos gratidão.



*



Toda a vida agradecemos,

Aquilo que tu nos deste,

Pois aquilo que nós somos,

Foste tu, que nos fizeste.



*



De ti temos saudades,

Dos colegas nos lembramos,

Aqui foi a mocidade,

Que hoje, aqui recordamos.



*


(Música: Meu lírio roxo)



LM







Lumife @ 15:07

Qua, 20/04/05


1º Encontro de Amizade



Externato S. João de Deus



Alvito 16 de Abril de 2005


*



O tempo !


Quantos anos !


No tempo,


Que não dá tempo,


Para viver e sonhar,


Falta tempo,


Faltam anos,


P`ra vida aproveitar.


No tempo que passa rápido,


Muito da vida se esquece,


Não se esquece a amizade,


Que nossos corações aquece.



O/.



*



De repente tudo se alvoraçou. Recebida a carta convite para o “Encontro de Amizade”
como que acordados duma longa letargia, os nomes dos companheiros, os locais de
convívio, os momentos inesquecíveis, tudo foi surgindo desse nevoeiro cerrado que
tudo cobria. Tinham sido cerca de quarenta anos de ausência, de afastamento.



Por vezes tinham sido momentos de dor pelo desaparecimento dalgum amigo

ou familiar, outras vezes de alegria quando as novas nos enchiam de júbilo.




Foi aqui, neste Alvito , que aprendemos a amar, foi aqui que também aprendemos

a ser amados.

No entanto o destino, em seus inexoráveis caprichos, desenhou o percurso de nossas vidas e restou-nos prosseguir a caminhada até Deus querer.



Todos desejávamos este encontro. Todos queríamos ver e abraçar e falar com aqueles que nos acompanharam nos nossos tempos de estudantes. Era um misto de
alegria e ansiedade. Era ver um sonho de tanto tempo ser realizado. Era para
todos a concretização dum anseio íntimo e tão longamente esperado.



Como bons alentejanos fomos sempre aguardando que se fizesse este Encontro e
finalmente surgiu um grupo de amigos que impulsionou a ideia e levou por diante
esta querida iniciativa. Podem crer que jamais deixarão de ser credores de todo o
nosso agradecimento por terem conseguido levar a bom termo tão difícil tarefa.
Para a Olinda, o Joaquim e a Graça vai o nosso reconhecimento e também

os parabéns pela organização das cerimónias religiosas, pelas homenagens
prestadas e pelo convívio no Clube dos Caçadores


LM






Lumife @ 01:02

Qua, 13/04/05

pastor.jpgPastor por Dordio Gomes


*







Em primeiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a paisagem, que para Eduardo Teófilo em Alentejo não tem sombra é um:


“Plaino imenso, extensão sem fim a perder-se, lá, onde a vista mais não alcança, mar dourado ondulando de leve, num amarelo forte que se vai esbatendo pouco a pouco à medida que a extensão se esquece e acaba. Céu azul, baço, abóbada afogueada por sobre a seara madura, pare­cendo pousada mesmo sobre nós, Sol que não se pode olhar que o reflexo do seu disco brilhante cega e dói.



Não há uma sombra, não se vê viv'alma. O mundo parou, a vida parou, como que hipnotizados pela salva res­plandecente do Sol a pino, bem na vertical”.



Em segundo lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o carácter do povo alentejano, sobre o qual nos diz Vítor Santos no seu Cancioneiro Alentejano:



“Independentes, ousados, alegres embora de feições duras e escurecidas pelo sol, eles mostram bem, pelo espírito decidido e olhar sobranceiro e um tudo-nada desconfiado, que possúem a consciência da sua força e do seu valôr”.



Faz parte ainda do carácter do povo alentejano, o amor desmesurado que nutre pela sua terra. Como nos diz Antunes da Silva em Terra do nosso pão:



“Isto de Alentejanos é gente que puxa para uma banda só. Partir à aventura no rasto da fortuna, caindo aqui, levantando-se além, não é caminho que se abra às vozes da alma dos Alen­tejanos. Nem é o susto de outras paisagens vir­gens para onde os mandam, mas o amor sub­merso que têm ao seu chão e que de repente se ergue como uma força do sangue. Teimosamente agarrados à plenitude dos escampados, ao valor das suas vilas e aldeias, aprendem a ser livres com a natureza que lhes legaram seus avós.”



Em terceiro lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o trajo popular. Diz-nos Luís Chaves em A Arte Popular – Aspectos do Problema:



“O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe; e tudo que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção dos tecidos, até a côr e a forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está”. O trajo alentejano é rico e diversificado, quer seja usado por homem ou mulher, estando em relação directa com a posição de cada um na escala social e com as tarefas diárias desempenhadas.



Em quarto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a gastronomia. O Alentejo é a região do borrego e este é um recurso com elevada cotação na bolsa de valores gastronómicos. Por isso, no âmbito da FIAPE – Feira Internacional Agro-Pecuária de Estremoz, decorre a Semana Gastronómica do Borrego, onde o borrego impera como rei e senhor. Então, os restaurantes locais apresentam receitas a Concurso, todas confeccionadas a partir do borrego. Eis algumas: sopa da panela, ensopado de borrego, borrego guisado com ervilhas, mãozinhas de borrego panadas, perna de borrego trufada, cozido de borrego com grão, feijão verde e abóbora, mãozinhas de borrego com molho de tomate, borrego assado à alentejana, sarrapatel de borrego, borrego de alfitete, miolos de borrego, iscas de fígado de borrego, arroz de fressura, empadas de borrego, tarte de requeijão, bolo de requeijão e queijadas.



Qualquer destes pratos é definidor da nossa identidade cultural. A gastronomia do borrego, essa é património culinário legado pelos nossos ancestrais. É património para mastigar, para saborear e para lamber os beiços, a comer e a chorar por mais, pois barriga vazia não conhece alegrias... Por isso, apetece dizer: - Viva o património mastigável! - Viva! - Avante com a defesa do património! - Avante!



Em quinto lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a arte popular. Desde tempos imemoriais que o pastor alentejano ocupa o tempo que lhe sobra da guarda do rebanho em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre. Resumidamente referiremos: garfos, colheres, chavões, foicinheiras, esfolhadores, formas de dobar linhas, cabaças, caixas de costura, polvorinhos, cornas, etc. Naturalmente, que na arte popular e muito para além da arte pastoril, há a incluir entre inúmeras outras formas de arte popular, a barrística popular e a olaria .



Diz-nos Virgílio Correia na Etnografia Artística:



"A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”



Já João Falcato no Elucidário do Alentejo diz-nos que:



“Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.



E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos. "




Em sexto-lugar a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cancioneiro popular. De facto, têm bastante expressão entre nós os poetas populares, muitos dos quais são pastores que criam, sobretudo, décimas e quadras que registam no livro vivo da sua memória. A quadra, essa pode ser brejeira:




Assente-se aqui, menina,


À sombra do meu chapéu,


O Alentejo não tem sombra,


Senão a que vem do céu.




Pode ser também o reflexo do grande isolamento em que vive o pastor, que lhe permite conhecer a natureza que o rodeia, muito em particular, o céu:



As árves que o mundo tem


Cubro-as c’o meu chapéu.


Diga-me cá por cantigas


Quantas ‘strelas há no céu?




Por vezes a poesia encerra uma profunda crítica social:




Sobe o rei no alto trono,


Desce o pastor ao val’ fundo;


Uns p’ra baixo, outros p’ra cima


Vai-se assim movendo o mundo."




Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.



Em sétimo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com o cante, que segundo a tese litúrgica do padre António Marvão teve origem em escolas de canto popular fundadas em Serpa, por monges paulistas do Convento da Serra d’Ossa, os quais tinham formação em canto polifónico.



No Cancioneiro Alentejano – recolha de Victor Santos, diz Fernando Lopes Graça:



“O alentejano canta com verdadeira paixão e todas as ocasiões lhe são boas para dar largas ao seu lirismo ingénito. Não há trabalho, folga, festa ou reunião de qualquer espécie, sem um rosário infindo de cantigas.”



Manuel Ribeiro na Lembrança dos Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, Mértola, Vidigueira e Vila Verde de Ficalho, diz-nos:



“Só no Alentejo há o culto popular do canto. Ali se criou o tipo original do “cantador”. Pelas esquinas, altas horas, embuçados nas fartas mantas, agrupam-se os homens: esmorece a conversa, faz-se silencio e de subito, expontâneamente, rompe um coral. É o diálogo em que eles melhor se entendem, é a conversa em que todos estão de acôrdo.



Quem não viu em Beja, em certas ruas lôbregas, em certos recantos que escondem ainda os antros esfumados das adegas pejadas de negras e ciclopicas talhas mouriscas, quem não viu duas bancadas que se defrontam e donde se eleva um canto entoado, solene e soturno, com o quer que seja da salmodia dum côro de monges?”



Embora possa cantar só, o alentejano canta sobretudo em coros e esse canto é sério, dolente, compenetrado e mesmo solene, porque o alentejano é lento, comedido e contemplativo, por força do Sol escaldante.



O coro une os alentejanos. Como diz Eduardo Teófilo em Alentejo não tem sombra:



“Há, no entanto, a ligá-los a todos, algo de pró­prio, de indefinidamente próprio e que os torna re­conhecíveis em qualquer lugar em que se encontrem.(...). Todos eles estão marcados a fogo, pelo fogo daquele Sol ardente que, mesmo quando mal brilha, entra nas almas e molda os caracteres, todos eles apresentam o seu rosto cortado por navalhadas de vida e tostados pelas ardências do Sol de Verão, como se vivessem todos, realmente, sem uma sombra a que se abrigar.”



Sobre o cante diz-nos ainda Antunes da Silva em Terra do nosso pão:



“As cotovias cantam para o céu, tresnoitadas. Os Alentejanos cantam para os horizontes, sonhando. Dessas duas castas melodias nasce a força de um povo!”




Em oitavo lugar, a identidade cultural do povo alentejano tem a ver com a habitação popular, o monte ou a casa de povoado, ambos de planta rectangular e com chaminé aparecendo em ressalto na fachada. Os materiais de construção são a taipa e o tijolo. O telhado é de duas águas, coberto de telhas assentes em ripas. As paredes, reforçadas por vezes com contrafortes, são caiadas de branco. Lá diz o cancioneiro popular:




Nas terras do Alentejo


É tudo tão asseado...


As casas e o coração,


Sempre tudo anda lavado...




Julgo ter ficado sobejamente demonstrado que pela sua paisagem própria, pelo carácter do povo alentejano, pelo trajo popular, pela gastronomia, pela arte popular, pelo cancioneiro popular, pelo cante, pela casa tradicional, o Alentejo é uma região com uma identidade cultural própria.



Como diria o poeta, é preciso, é imperioso, é urgente, que cada um de nós tenha consciência dessa identidade cultural e lute pela sua preservação, valorização e aprofundamento.



*


(Hernâni Matos)









Lumife @ 23:28

Qui, 07/04/05

fialhoDeAlmeida-por Vasco.gifFialho de Almeida visto por Vasco



*



Nasceu em Vila de Frades no ano de 1857 e formou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa.


A sua vida foi cheia de dissabores e agruras, porque parece que o destino se decidiu a lutar contra ele. No meio de tudo que lhe foi sucedendo, nunca deixou de trabalhar e, no papel, imprimiu páginas de deslumbramento. Os vultos da literatura deram-lhe um lugar de destaque na hoste dos grandes contistas portugueses.


Desta forma, é muito vasta a sua obra e, claro está, essencialmente constituída por contos: "Contos", 1881; "A cidade do vício", 1882; "Lisboa galante", 1890; "O país das uvas", 1893; "Os gatos", 1889-94 - uma publicação periódica do folheto, constituído por seis volumes, onde aparecem notas mordentes e sarcásticas (que aliás é uma qualidade muito peculiar ao longo dos seus escritos).


Escreveu também uma grande série de crónicas e impressões e comentários diversos, que se distribuem por vários volumes: "Jornal de um vagabundo" - "Pas quina das", 1890; "Vida irónica", 1892; "À esquina", 1903; "Barbear, pentear", 1910.


Após a sua morte, ocorrida em 1911, foram editados os títulos: "Saibam quantos..." - Cartas e artigos políticos -, 1912; "Estâncias de arte e de saudade", 1921; "Figuras de destaque", 1924; "Actores e autores" - impressões de teatro -, 1925.


Os seus contos procuram apreender o lado mais impressionante da miséria ou do sofrimento, e o assunto, muitas vezes, são casos mórbidos. As inúmeras crónicas que escreveu são muitíssimo irregulares quanto ao mérito. Não podem, de forma alguma, ser comparadas com "As farpas", de Ramalho Ortigão.


Embora a sua escrita se paute pelo mordaz, ele era muito sensível à ternura: deixava-se embalar por sentimentos que se reflectem na sua obra, que é de uma beleza extraordinária. Tinha um conhecimento profundo da nossa língua; por isso, a enriqueceu grandemente, introduzindo-lhe novos e arrojados meios de construção, neologismos e nacionalização de termos expressivos.


Caracteriza-o um estilo vigoroso, muito exuberante e colorido.





Lumife @ 17:50

Seg, 04/04/05

Poema.jpg



Primeiro, ficar parado


durante um momento, de pé


ou sentado, numa sala ou mesmo


noutra dependência do lar.


Depois preparar


os olhos, as mãos, a memória


e outros utensílios indispensáveis. A seguir


começar a reunir


coisas, por ordem bem do interior


do coração e do pensamento:


a ternura dos avós, uma mancheia;


rostos de primos distantes, uma pitada;


sons de sinos ao longe, quanto baste;


a recordação duma rua, uns bocadinhos


um velho livro de quadradinhos


duas angústias mais tardias, alguns restos de azevias,


a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes


e de uns já passados.


Quatro beijos de seres amados ou de parentes


um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados


e um pouco de azeite puro e fresco


igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.


Mexe-se bem, leva-se ao forno


e fica pronto e saboroso


– mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.




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